quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Luana


Luana lavava louça quando a bolsa estourou. Fechou a torneira e ali permaneceu serena olhando o horizonte. A poça no meio das pernas foi crescendo e ela finalmente moveu-se. Parecia alheia à algazarra que vinha da sala.

Estirou-se na cama, abraçou a barriga e ficou olhando o quadro pendurado na parede em frente, um recorte de revista com a foto de uma janela, de onde se divisava uma bucólica paisagem marítima. O azul do céu acentuava o ambiente de tranqüilidade. Luana apertou mais fortemente a barriga e seu rosto se contorceu. As dores das contrações reavivaram outras dores.

Depois de mais uma violenta surra, a pequena Luana de 10 anos, colocou a irmãzinha Lili para dormir. Ficou muito tempo sentada no escuro, ao lado da menina que, mesmo dormindo, continuou chorando baixinho por um bom tempo. Há muito o ódio suplantara a humilhação e toda a dor física. Era um sentimento tão profundo dentro de si, que Luana tinha a sensação que explodiria a qualquer momento. E o ódio guiou seus atos.

O porcão roncava refestelado no sofá, que a mãe comprara em uma época em que se importava com alguma coisa. A boca entreaberta e os olhos meio fechados resultavam em medonha careta. O rosto da menina encrespou-se quando viu a camisa e a braguilha abertas. Ele mexeu-se, os olhos tremeram e o bafo de álcool pareceu mais forte. Foi quando Luana desferiu o golpe, a força idêntica ao ódio que sentia. O animal ainda gritara igual aos porcos que a vizinha matava, mas quando acorreram as primeiras pessoas ele estava morto.


O assombro foi geral. A vizinhança perguntava-se como uma menina tão franzina, conseguira fazer tal estrago. Luana mostrara-se sempre uma criança dócil. Com responsabilidades de adulto, não sofreu somente as contingências de uma vida precária, mas também as marcas da vilania. Uma mulher negra, gasta pela idade e pela vida, falou que o morto era um traste que batia e “dormia” com mãe e filhas.


Não houve grande investigação, a bem verdade nenhuma. Ninguém pareceu nem notar o olhar sofrido no rosto de menina, ninguém  também perguntou das marcas no corpinho frágil e esquelético. Naquele mundo não era evidência de nada. A vida brutalizada daquela criança não era nem uma tragédia. O seu rosto também não era importante, nem mesmo seu nome. Luana não era sequer um número. Naquela sociedade, sua história estava no meio de uma multidão de histórias tristes e grotescas. Os pormenores vis, a sujeira, a crueza da brutalidade, e a sordidez eram jogados para debaixo do tapete. Da classe média para cima, nos famigerados anos 80, os casos sórdidos que iam parar na justiça eram tratados a portas fechadas, escondidos do mundo, e nos jornais eram embrulhados num mesmo pacote e banalizados em termos que pouco diziam, apenas alertavam que o mundo nas favelas, na pobreza e na miséria era feio, mau e sujo. Assim se constrói uma marca, assim se cria a fama, se gera o preconceito, e ao mesmo tempo assim se destrói uma reputação, a dignidade e se aniquilam vidas.


Luana perguntava-se se não teria feito o mesmo com a mãe, caso ela estivesse presente aquela noite. Mas era melhor não ir fundo nessa questão. Levou muito tempo para deixar de escutar a voz esganiçada e arrastada de bêbeda: “Essa menina não presta, vivia tentando o homem, si trocava na frente dele. "Vagabunnda!”. Cabeças se reviraram chocadas com as palavras daquela mãe. Luana tentou enterrar o passado para semear a esperança.


Soando e chorando de dor, não tinha forças para calar as vozes do passado.


Depois de muito tempo na Febem*, sua mãe apareceu. Foi por Lili que Luana aceitou vê-la. Manteve-se afastada, fria. Mal se lembrava da última vez que vira a mãe sóbria. A visita foi rápida. Com voz entrecortada a mãe contou que se mudara para casa da vó Lucinda e Lili passava o dia numa creche. Na segunda visita, a irmã veio junto. A menina tagarelou pelas três. Luana sentiu uma pontada de amargura. Lili era muito pequena quando se separaram e parecia não se lembrar dela. Na hora de partir a pequenina abraçou-a e beijou-a sem hesitação e Luana chorou feliz. Luana apertou a irmã, saboreando com prazer aquele sentimento tão puro. Aquele momento alimentou por dias uma alegria que fazia tempo não sentia. Aparentemente sua mãe criara juízo, estava aprendendo costura no salão da igreja, trabalhando. As visitas foram rareando até que cessaram.


Foi uma época penosa a que viveu na fundação, mas não a pior de sua vida. Quando conheceu Chico, começou a ver o mundo com novas cores. Seu lugar preferido era uma janela gradeada que ficava no alto, onde ela enxergava o céu, que parecia cada vez mais azul. Permanecia ali muito tempo olhando para além das grades, imaginando um espaço acolhedor e bonito em algum lugar. Foi numa velha revista que Luana achou “seu pedacinho de céu”.


Namoro na Febem era difícil, mas Chico sempre dava um jeito. A primeira vez que cruzaram o olhar, Luana sentiu o coração bater forte. Ele sorriu e acenou  para ela. Depois tudo aconteceu muito rápido. Naquele lugar tudo era rápido. Banho de minuto, refeições corridas, pancadaria a torto e a direito, rebeliões... Ela sempre fora quieta, era chamada de “mudinha”. No entanto, ninguém escapava aos ataques brutais e ensandecidos de algumas internas e funcionários. Mas agora Luana tinha “seu pedaço de céu”.

Chico completou dezoito anos e foi embora. A despedida veio por bilhete, um pedaço de papel de embrulho grosseiro e amarfanhado que dificultava mais ainda a leitura já precária de Luana. Precisou de um dia inteiro para entender as letras incertas. Além de tudo tinha de ler longe das vistas dos funcionários. O coração de Luana pulsou de alegria quando percebeu tratar-se de um endereço. Seu futuro estava decidido.


Chegou o dia. Luana sentia medo do mundo lá fora. O pouco que conhecia dele era feio e hostil. Não podia procurar sua mãe. Não tinha nada a dizer para ela. Seu coração estava vazio. Quanto a Lili, os laços e a cumplicidade de antigamente, haviam se diluído na distância e no tempo. Luana foi então ao encontro de seu destino. A favela ficava num bairro distante. Luana percebeu que a droga ali rolava solta. Para


Para quem queria aprender sobre o mundo do crime, a Febem oferecia o currículo completo. Os mano como Chico os chamava passavam o dia dormindo, de noite sumiam.  Ela andou de bairro em bairro, de porta em porta pedindo serviço, até que conseguiu uma faxina. A dona da casa, mãe solteira,gostando do jeito de Luana tratar sua filhinha, acabou arrumando outras faxinas. Aos sábados, Luana cuidava da pequena, só voltando para casa no domingo.


Estava feliz. Grávida, achou que era hora de ela e Chico se mudarem, além do que, a hostilidade dos mano a incomodava. Ficou sabendo de uma casa no alto do morro. Quando bateu os olhos na janela da cozinha, achou que tinha encontrado o caminho para o seu pedaço de céu. Um dia sairia da favela. Mas isso ainda levaria um bom tempo. Ali começariam a construir o futuro.


Luana estava impaciente para mostrar a nova casa a Chico. Fez um jantar especial e, por ele, acabou chamando os mano. Ficou magoada com a reação do namorado. Chico disfarçava o nervosismo imitando os amigos, levantando os objetos e revirando-os com ar de troça, escarnecendo de tudo. Diante da mesa preparada com tanto capricho, onde não faltava nem um arranjo de flores no centro, eles caíram na risada. Olha só, olha só isso aqui. Mano, essa casa é uma novela!”. Quando um dos rapazes tentou pôr a mão na travessa, Luana não deixou. Uma das garotas se queixou de fome e a tensão serenou. Mais tarde já deitados, olhando o seu quadro na parede, Luana falou que gostaria de pintar os sonhos das pessoas. Chico deu risada, observando que ela tinha sonhos de branco. Embalado pela alegria e otimismo dela, ele prometeu procurar emprego. Luana recorreu à mãe da pequena Júlia que conseguiu uma colocação na oficina de um amigo.


Aos dezoito anos, Luana possuía a maturidade de quem viveu muitas agruras. Quando o padrasto começara a surrá-la, odiara a mãe que além de se embebedar com o companheiro, fazia vista grossa aos espancamentos das filhas, quando não ajudava na festa. Lili tinha tal horror ao padrasto que, bastava escutar-lhe a voz para desandar a chorar e a urinar. Era quanto bastava para desencadear a fúria ensandecida do homem. O sofrimento de Lili ricocheteava na alma da irmã. Luana sentia a imensurável desproporção do peso que carregava em seu corpinho de criança. Seu grito desesperado irrompia em única palavra “Mãeeeeee...". A resposta, um enigmático silêncio, olhares fugidios e ou um abandono de cena. Esta inércia era como ponta de lança perfurando-lhe corpo e alma. Restava-lhe atrair a fúria do monstro, ofertando o próprio corpo em sacrifício.


Depois de tanto tempo sendo açoitada aprendera a engolir o choro. Mesmo quando ele a sentava na mesa da cozinha sem calcinhas, lhe escancarando as pernas, molhando-a com a gosma que saía dele, furando-a, fungando e movimentando-se como um cachorro, Luana não chorava. Ela corria depois a se lavar, enojada e envergonhada. Não brincava com as outras crianças. Caminhava de cabeça baixa. Na quitanda precisava repetir várias vezes o pedido, de tão baixo que falava. Seu Joaquim pensava que ela era retardada.


Oh, sim! Luana podia entender muitíssimo bem a revolta e o ódio de Chico pela sociedade. Abandonar uma criança nas ruas de São Paulo era o mesmo que condenar uma alma a um inferno dantesco para toda a eternidade. Discursos paternalistas e exibição de conhecimentos equivocados sobre crianças de rua, miséria e criminalidade proliferavam na televisão. Luana olhava aquelas pessoas que por alguma razão divina ou não, tinham uma vida privilegiada e em seu íntimo gritava-lhes “O que vocês entendem de miséria, de fome, de maus tratos? Para que tanta  falação se nada vai mudar?” Para ela, se a vontade de fazer algo fosse genuína, estariam nas favelas e na Febem, assistindo de camarote ao que acontecia na vida real. Na TV, o discurso estereotipado e as palavras bonitas, mascararam de fantasia a realidade.


Chico começou a chegar em casa mal humorado. Não gostava do jeito como era tratado na oficina. Para piorar era o único funcionário negro. Nem sequer o chamavam pelo nome. Sentia falta dos amigos que passaram a ignorá-lo. Um dia sumiu uma ferramenta na oficina e o dono começou a olhá-lo torto. Quando sumiu a segunda, o homem arrumou uma desculpa e despediu-o.


A hora avançava e Luana foi ficando agoniada. Subiu e desceu o morro até a exaustão. No dia seguinte acordou cansada, alimentou-se mal e aguardou penosamente o final da tarde. Eram nove horas quando decidiu ir até o barraco dos mano. Bateu palmas e chamou pelo nome de Chico. Não tendo resposta, criou coragem e entrou. Irritado com o modo desrespeitoso como ela entrara na casa, Chico destratou-a diante de todos, chegando a levantar a mão. Um homem mais velho chamou a atenção para o estado dela. Luana voltou triste e magoada. Naquela noite foi difícil subir o morro. Olhou muito tempo seu quadrinho, sentindo seu pedacinho de céu diluindo-se entre as lágrimas.


Chico ficou três dias sem dar as caras. Seco, foi logo falando que perdera o emprego mas que daria um jeito. Luana disse que ele arrumaria um emprego melhor, só precisava ter confiança. Sem a encarar um momento sequer, ele pegou uma cerveja na geladeira, sentou em frente à TV e ali quedou-se mudo e olhar fixo na tela. 


A assiduidade com que os mano começaram a freqüentar sua casa confirmou o que tanto temia. Chico deixava envelopes com dinheiro na gaveta da cômoda. Luana passou a sentir medo. Cada pancada na porta era um sobressalto. Aos domingos, os mano apareciam em peso. Assistiam futebol na TV, permanecendo até altas horas jogando cartas, falando em códigos. Não podia faltar cerveja e carne.


Certo dia, Luana pediu a Chico se poderia reunir-se com os amigos em outro lugar, porque ela precisava descansar. Chico respondeu agressivamente que os mano eram sua família e ela tinha que respeitar. Calma, ela redargüiu que respeitava mas sua casa era sua casa e ela tinha o direito de descansar, já que trabalhava a semana inteira. Chico assentou-lhe uma bofetada e perguntou se ela não estava satisfeita com o dinheiro que lhe dava. Luana foi pegar o dinheiro e jogou na cara dele. Desafiadora, disse com ar de desprezo, que nunca usaria dinheiro sujo. O segundo bofetão veio mais forte. E Chico se foi.


Quase um mês depois, quando ele voltou, Luana lhe entregou em silêncio uma mala. Chico caiu em prantos, pediu desculpas dizendo que ela conhecia, como ninguém, seu sonho de ter uma família. Luana ficou sem reação. No fim terminou desfazendo a mala. Esta cena virou rotina e logo Luana não tinha mais forças para contrariá-lo. Volvia o olhar melancólico para o horizonte, na mesma janela em que vislumbrara, não fazia muito tempo, uma nesga de abertura para o pedaço de céu que a esperava. 

Sem nem saber direito porquê, Luana foi procurar a mãe e a irmã. Levou presentes. Lili, agora uma adolescente, manteve-se afastada, meio sem jeito. Luana gostou de vê-la costurando junto à mãe. Aquela, nervosa, enrolava entre os dedos um pedaço de malha. Luana elogiou a casa bem cuidada. Quando perguntou do trabalho, a mulher falou com entusiasmo dos projetos. Pretendia comprar um overlock assim que terminasse de pagar a máquina de costura. Não faltava trabalho. Aprendera na igreja que não precisava mais de uma porcaria de homem para ser respeitada. Luana pouco falou. Na hora da despedida, a mãe segurou sua mão, perguntou se ela estava bem, seus olhos se encheram de lágrimas. Luana puxou a mão e afastou-se. Ainda não estava preparada para ver aquela mulher como sua mãe. Ela ainda escutava a voz esganiçada: "Vaagabunnda!


As fortes dores trouxeram-na de volta ao presente. A hora tinha chegado e ela precisava lutar e sofrer uma última vez. Banhada em suor e lágrimas, Luana contorcia-se de dor. Evitando gritar, mordera a colcha com tal afinco que a rasgara, sem nem sentir o sangue que escorria do lábio. Uma hora colocou ambas as mãos entre as pernas que precisava segurar fechadas, forçando-se a empurrar o que insistia em sair. Quase desfalecendo, Luana lutava contra outra poderosa força da natureza.


No duelo de gigantes, cada qual tinha seu aliado: o filho, a vida; a mãe, a morte. Quando sentiu a cabeça do nenê saindo, Luana desesperou-se “Não meu nenê, vem não. Mamãe vai levar você pro céu" Fizeram juntos o último esforço e a dor se foi. Por um momento os olhinhos do pequeno ser se abriram para a luz, logo em seguida se fecharam para a morte. O último olhar de Luana foi para o quadrinho -, seu pedacinho de céu.

Em 1966, a FUNABEM publicou as suas Diretrizes e Normas para Aplicação da Política do Bem-Estar do Menor. Elaborado pela equipe técnica da Fundação, o document trazia a informação que a política do bem-estar do menor no Brasil, foi inspirada na Declaraçãodos Direitos da Criança, promulgada pelas Nações Unidas, em 1959. Nele, os idealizadores da instituição reproduzem o discurso da Declaração, afirmando que a sociedade deveria oferecer ao “menor” as necessidades básicas como: “saúde, amor e compreensão, educação, recreação e segurança social”

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