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domingo, 16 de outubro de 2016

Creuzinha, na força e na fé

"Existe alguém em nós
Em muito dentre nós esse alguém
Que brilha mais do que milhões de sóis
E que a escuridão conhece também
Existe alguém aqui
Fundo no fundo de você de mim
Que grita para quem quiser ouvir..." (A luz de Tieta)


Ela chega todo dia, super animada, mesmo quando uma gripe fora de hora fica cercando, murchando a disposição. Mas a força ali é titânica, um chá, um remedinho ganho de seu Ademar, o jardineiro, uma boa noite de sono e logo está ela ali do lado chamando ‘Vem tomar um café fresquinho, vem.’, com aquele sorriso grande, amigo. Um café e um papo bom, por vezes acompanhado de puxão de orelha ou um empurrãozinho oportuno e motivador ‘Ó xente, menina, quê isso? Vai sim senhor... Claro que consegue, sô.’ E no final: ‘Vai lá, vai lá que vai dar tudo certo.’ 

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Voltas e reviravoltas de um palito

Ela entrou e olhou em volta encantada. Tudo era lindo, delicado e suntuoso. Desde o menor objeto aos grandes armários que forravam as altas paredes, ou os majestosos lustres cheios de pedrarias que pendiam do teto. 'Hummm! Dignos de um palácio!'

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

Luana


Luana lavava louça quando a bolsa estourou. Fechou a torneira e ali permaneceu serena olhando o horizonte. A poça no meio das pernas foi crescendo e ela finalmente moveu-se. Parecia alheia à algazarra que vinha da sala.

Estirou-se na cama, abraçou a barriga e ficou olhando o quadro pendurado na parede em frente, um recorte de revista com a foto de uma janela, de onde se divisava uma bucólica paisagem marítima. O azul do céu acentuava o ambiente de tranqüilidade. Luana apertou mais fortemente a barriga e seu rosto se contorceu. As dores das contrações reavivaram outras dores.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Urtigão e Júlio Cézar

Urtigão pertence àquela camada mínima de bravos, que ao invés de culparem a vida e a má sorte, foram à luta, desbravando caminhos, desviando-se do infortúnio, driblando o destino. Criado no sítio, quarta geração, até onde sabia, de miserável família de sitiantes, originária não sabe de onde nem de quê, suspeitava que um pouco de todo o lado e de tudo, negro, índio, português, italiano..., iniciou na labuta muito cedo –, sete anos.

quarta-feira, 10 de setembro de 2014

Seu Vicente e D. Benê

Aos 58 anos, seu Vicente é até bem parecido. Estatura média, magro, bem trajado, feições finas, bigodinho, cabelo liso pintado de castanho, sempre impecavelmente penteado. Os ombros levemente curvados, e lá circula ele. Simpático, cumprimenta todo o mundo no prédio. Cavalheiro, corre solícito para ajudar alguém a carregar as compras ou abrir a porta do elevador.  Atenções que suscitam risinhos faceiros e aprumos nas senhoras do condomínio. Seu Vicente adora sentar-se na sala da portaria pra ler o jornal. Dessa forma, foi formando um circulo de amigos interessados em escutar e contar as ‘últimas’ do condomínio. Claro que seu Vicente tem sempre seu momento pra discursar sobre seus conhecimentos. Bem falante, carismático, sua panca de homem sério e letrado, suscita admiração na vizinhança, sobretudo em meio às senhoras.

quinta-feira, 14 de agosto de 2014

Dona Maria

Aos 70 anos, Dona Maria era uma mulher realizada. Fizera um bom casamento, claro não era o príncipe encantado, longe disso. No seu homem tudo era pequeno, começando pelo cérebro. Ainda assim não tinha por que se queixar. Afinal o que poderia esperar do futuro uma simples doméstica?

domingo, 24 de novembro de 2013

Dona Antônia

“...como os animais irracionais que só sentem aquilo que diretamente atinge a sua pele”.

“Poucos são os que compreendem (e menos ainda os que praticam) as alegorias e parábolas que Cristo usava para transmitir a sua doutrina moral”. (O Evangelho segundo o espiritismo, Allan Kardec)

Dona Antônia era dessas mulheres simplórias que via nas adversidades as penalidades de cada um. A lógica era simples: se até o filho de Deus tivera seu calvário, como poderiam meros pecadores passar pela vida sem sua via-crúcis?